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Debaixo do Radar | Playlist de Janeiro 2026

Atualizado: há 4 dias

Cardinals (foto de Ariane Quignon)
Cardinals (foto de Ariane Quignon)

Ano novo, música nova? A Playlist de Janeiro deixa entrever quem começa já a ensaiar o protagonismo do que aí vem.


Janeiro chega sempre com a ilusão produtiva de um recomeço: mês de escuta atenta, de expectativas projectadas, de movimentos antigos que regressam transfigurados pelas gerações que os herdam com (ou sem) reverência. A década arranca em suspenso, mais dada ao anúncio do que à consagração. Escasseiam os álbuns com vocação histórica, abundam os singles enquanto promessas. Fala-se sobretudo dos Grammys que aí vêm, embora os seus critérios continuem difíceis de assimilar, mesmo dentro da lógica da popularidade; talvez por isso este mês prefira prestar atenção ao que se anuncia pelos corredores soturnos do underground, mais do que a ansiedade por validação supérflua.


Este arranque de ano não se faz apenas de entusiasmo: traz também perda e reflexão. Prestamos homenagem a Matt Kwasniewski-Kelvin, guitarrista fundador dos Black Midi e talentoso ser-humano, cuja ausência recorda a urgência de pedir ajuda (e saber escutá-la). O impacto inicial de Schlagenheim não será esquecido; em grande parte devido à visceralidade irreplicável dos riffs pós-hardcore.


Ainda assim, a Playlist de Janeiro vibra com sentimentos complexos: a reinvenção emocional de Robyn, o desgaste melodizado em Joyce Manor, o caos íntimo de By Storm, o revivalismo franco de Gladie. Um motor que pega com contenção, prometendo sem gritar. Para já, preferimos ignorar previsões e prémios futuros e concentrar-nos no essencial: a música que importa, agora.


January 2026 Playlist | The Singles


“Talk To Me” surge como o gesto mais imediato e desarmante do regresso de Robyn após quase oito anos de silêncio discográfico. Inserida no anúncio de Sexistential, a canção assume-se sem rodeios como pop em estado de excitação controlada: um banger luminoso, sintético; construído para a pista, mas atento ao detalhe emocional. Há aqui um reencontro simbólico: Robyn volta a compor com Max Martin (pela primeira vez desde Time Machine), e sente-se essa química antiga na clareza melódica, no refrão que cola e na pulsação que remete directamente para a era Every Heartbeat, agora filtrada por uma artista plenamente consciente do seu corpo, da sua voz e do seu desejo.


Composta durante a pandemia, “Talk To Me” transforma a ausência de contacto físico numa afirmação de sensualidade mediada pela palavra. A produção (partilhada entre Klas Åhlund, Martin e Oscar Holter) é polida, mas nunca estéril, equilibrando doçura vocal com uma energia borbulhante. No contexto de Sexistential, álbum que a própria descreve como um regresso ao eu depois de uma fase exploratória que a afastou da sua essência, "Talk To Me" é acessível, confiante e deliciosamente viva.


ROBYN | "TALK TO ME"



Gladie, uma promissora philly band, interessa-se por presença e resistência. “Future Spring” é um turbilhão de ganchos punk, liderado por guitarras fuzz satisfatórias e melodias vocais afiadas de Augusta Koch. A sua entrega conversacional dá à faixa uma energia descomplicada, mas a banda equilibra habilmente a linha condutora entre o espinhoso e o doce, sobrepondo distorção cortante a um refrão irresistivelmente cativante. O resultado é galvanizante, catártico, impossível de ignorar. As letras acompanham: “The parts that you’ve been avoiding/ Oh they’re catching up to you/ What makes you quiet/ What keeps you small/ Why do you give up power/ When they don’t care at all?”.


Koch explica: "Future Spring is about grappling with the isolation and loneliness that’s created by the cruelty of the world we live in. I wanted to capture the feeling of being in conversation with a friend, questioning why at times we can let outside influences shrink us. I think the world would be a lot better if we encouraged each other to be kinder to themselves and by extension others. It’s good to remind people that you are happy they’re here."


A faixa é um convite à empatia ativa: punk e vulnerabilidade sempre coexistiram em harmonia perfeita. “Future Spring” prepara-nos para No Need To Be Lonely, álbum que chega a 20 de Março via Get Better Records.




Por fim, os irlandeses Cardinals colocam o acordeão no centro de "I Like You", enquanto guitarras e bateria pontuam cada pausa com impacto, e a voz Oberstiana de Euan Manning atravessa a canção com angústia contida. Manning transporta-nos para o seguinte cenário: uma tenda de festival, cerveja a tilintar e ombros a balançar, ao descobrir uma nova banda favorita. A faixa é o último single do álbum de estreia Masquerade (13 de Fevereiro, So Young Records).


Manning recorda a génese da canção: “This is the first song we wrote with the album in mind. After a very long period of not working on anything we started and finished this some bright morning last February in our practice studio. It felt cathartic, a completely grounding moment after feeling slightly lost for months. The first lyric is stripped/ paraphrased from the tune "My Funny Valentine". I don't think it was written by Chet Baker but that's the version we know.” 




January 2026 Playlist | The Albums


O melhor álbum do mês é tão fugaz que, quando percebemos a dimensão da experiência de vida que se propõe a narrar, já estamos na última faixa. Isso não o diminui. Pelo contrário. Os Joyce Manor têm esta capacidade rara de encapsular um mundo em menos de dois minutos. De fazer caber passado, presente e hesitação futura em canções que terminam antes de darmos conta. Este é um dos seus registos mais completos. No sétimo LP, I Used To Go To This Bar, a banda encontra um equilíbrio entre a turbulência da juventude e a idealização da maturidade. Há melancolia. Há reflexão.


O mundano surge aqui como fiel depositário de um significado único. O vício em cannabis. O bar sem nada de especial, escolhido apenas por ficar perto de casa quando ainda não havia carro. Joyce Manor são honestos e comoventes através do seu retrato do banal. Musicalmente, o disco percorre toda a paleta da banda. “I Know Where Mark Chen Lives” é antémico. “All My Friends Are So Depressed” recupera o twang cowpunk dos primeiros tempos. “Grey Guitar” fecha com uma dramaticidade que remete para “Constant Headache”. “Well, Whatever It Was” e “Well, Don’t It Seem Like You’ve Been Here Before” condensam humor e ganchos pop-punk. Joyce Manor continuam a provar que a densidade emocional não se mede em duração.




My Ghosts Go Ghost brota de um exercício de reestruturação da memória. A morte de Stepa J. Groggs, em 2020, encerrou definitivamente Injury Reserve e levou os restantes membros, Parker Cory e RiTchie, a reorganizarem-se sob o nome By Storm. My Ghosts Go Ghost alicerça-se nas noções de desvio e suspensão. Uma fusão de hip-hop experimental e neo-psychadelia, com travos de illbient e folktronica, que parece retratar um estado mental na sua forma mais pura.


O disco desenrola-se como uma conversa inebriada pela madrugada dentro, onde verdades surgem fragmentadas, abstractas, por vezes difíceis de fixar. A criatividade continua vertiginosa, mas filtrada por uma névoa meditativa: paisagens minimalistas, ruído envolvente e explosões catárticas. My Ghosts Go Ghost é um álbum que não tenta substituir o passado, optando por coexistir com os seus fantasmas.




Por fim, decidimos repartir o último destaque do mês entre dois discos que precisam de tempo para ser reescutados e reinterpretados. Referimo-nos a Can I Get a Pack of Camel Lights?, de Geologist, e With Heaven On Top, de Zach Bryan. No caso de Geologist, encontramo-nos perante o primeiro disco verdadeiramente a solo de Brian Weitz ("of Animal Collective fame"). Em Can I Get a Pack of Camel Lights?, Weitz recorre a drones de hurdy gurdy, electrónica orgânica, pulsões kraut, free jazz e ambient minimalista para conceber uma crepuscular paisagem post rock onde ancestralidade e futurismo se entrelaçam peculiarmente. Em troca, requer uma constante escuta atenta: ao detalhe; à repetição hipnótica.




Zach Bryan continua a ser uma figura difícil de digerir: prolífico, emocionalmente exposto e por vezes errático; no entanto, visivelmente capaz de momentos de verdade crua que justificam a atenção. With Heaven On Top é o sétimo capítulo de tal compulsão criativa: longo, irregular, por vezes redundante. Ainda assim, este é o seu disco mais ambicioso em termos sonoros, com arranjos de metais, cordas e harmonias que ampliam a escala das canções sem as tornarem artificiais. Algumas faixas não impactam de imediato. No entanto, Bryan também consegue ser instantaneamente devastador: nas canções sobre a mãe e nos retratos de perda e culpa. A voz rouca carrega honestidade e um processo de tentativa e erro que se propõe a recompensar quem aceita atravessar a longa jornada contida em um disco duplo para desvendar os instantes em que tudo parece fazer sentido. Quem sabe, talvez cada audição revele em si o potencial de faixas outrora inegligenciadas. As obras autênticas são assim... especialmente quando constituídas por vinte e cinco canções.


JANUARY 2026 PLAYLIST | DESTAQUES DO MÊS


  • Zach Bryan, With Heaven On Top (Belting Bronco, Warner, 9 Janeiro)

  • Dry Cleaning, Secret Love (4AD, 9 Janeiro)

  • Mary Lattimore & Julianna Barwick, Tragic Magic (In Finé, 16 Janeiro)

  • ASAP Rocky, Don't Be Dumb (AWGE / ASAP Worldwide, RCA Records, 16 Janeiro)

  • Sassy 009, Dreamer+ (PIAS, 16 Janeiro)

  • Victoryland, My Heart Is A Room With No Cameras On It (Good English Records, Many Hats Distribution, 23 Janeiro)

  • Searows, Death In The Business Of Whaling (Last Recordings On Earth, 23 Janeiro)

  • Geologist, Can I Get A Pack Of Camel Lights? (Drag City, 30 Janeiro)

  • By Storm, My Ghosts Go Ghost (deadAir, 30 Janeiro)

  • Joyce Manor, I Used To Go To This Bar (Epitaph Records, 30 Janeiro)

  • A.G. Cook, The Moment (The Score) (A24 Music, 30 Janeiro)


JANUARY 2026 PLAYLIST | SPOTIFY



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